Olhar Público

Terça-feira, 1 de Junho de 2010 - 11 anos como padre

Depois das primeiras actividades habituais do dia-a-dia – levantar-se, toilette, oração de ofício e leitura e pequeno-almoço -, às 9h00 foi a celebração da Eucaristia, à qual se seguiu o estágio na Casa do Gaiato.

Terça-feira é também um dos dias da semana, em que das 16h30 às 19h00, fico à disposição dos paroquianos para o atendimento. Entre muitos que nesta terça-feira procuraram pelo padre, figuram três estudantes em busca de informações sobre o trabalho da escola: “o testemunho de um padre”. Pediram-me que lhes falasse da minha experiência como padre.
Curioso é que no dia 20 de Abril deste ano, aquando da reunião da Vigararia IX realizada em Vialonga, onde sou pároco, aos padres presentes já dei um o testemunho da minha vida sacerdotal que por ocasião do pedido dos estudantes, achei partilhar neste espaço.

Já lá vão 11 anos desde que sou padre. Destes 11 anos, 2 anos foram passados no Seminário Maior de Teologia da Diocese de Benguela (Angola) como Prefeito dos estudos; 1 ano como vigário paroquial de três paróquias do Patriarcado de Lisboa e 8 anos como pároco de Vialonga. Sem dúvidas, é tempo suficiente para partilhar e também para me perguntar: valeu ou não a pena ser padre? Se hoje tivesse que optar novamente ainda escolheria ser padre apesar de tudo quanto se diz contra os padres? De certeza que são questões dum olhar para o passado e para o futuro numa dinâmica de mudança e continuidade. Mudança do que considero menos ajustado ao ministério sacerdotal e de continuidade com o que torna mais eficaz o sacerdócio.

Olhando para o passado, os 11 anos de vida sacerdotal sem dúvidas são um reportório de momentos de muitas felicidades e alegrias que me dão motivos e forças de ser padre mesmo se hoje a civilização cada vez mais vai perdendo o sentido da vida religiosa e só mal se diz dos padres, para não falar de tentações próprias do mundo de hoje. Quanto à satisfação pela vida sacerdotal, lembro-me da imensa felicidade que senti e os colegas também sentiram no dia da nossa ordenação. Sem exageros, aquilo parecia mais um velório do que ordenação (Lágrimas de satisfação).

A fraternidade sacerdotal de que eu tenho sido beneficiário ao longo destes anos, tem sido uma das fontes da minha realização como sacerdote. Senti isto quando estive na minha diocese, e por isso não me foi fácil sair de Angola e estava mesmo para recusar a proposta do bispo, não fosse a minha mãe que me dizia: “filho, tu te consagraste para o mundo, por isso vai onde te mandarem. Para onde fores terás amigos padres”. E decorridos estes anos e cá em Portugal, dou razão à minha mãe que já está no Céu, e mais ainda, sinto concretizarem-se em mim as palavras de Jesus: "Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos ou terras por causa do Meu nome, receberá cem vezes mais" (Mt 19, 29). E que dizer do carinho dos fiéis que sirvo? A consciência do cumprimento do dever, é outra fonte de satisfação sacerdotal. Estes e outros sinais do amor e presença de Deus em mim, são o motor que anima o meu sacerdócio e dá força para ser paciente, para escutar e acolher com amor todos quantos chegam…

Como é óbvio, durante estes anos nem tudo tem sido mar de rosas. Muitas noites foram passadas em “branco” quer como Prefeito no Seminário de Teologia (Angola), quer como pároco cá em Portugal. Mas apesar de tudo, consolam-me as palavras de Jesus: “Se alguém quiser ser meu discípulo tome a cruz todos os dias e siga-me”. Portanto, não obstante as experiências por que tenho passado, ainda hoje escolheria ser padre. Aliás tenho amadurecido muito com estas experiências, para além de que ser seguidor de Cristo é tomar a própria cruz todos os dias como já disse. Confesso que registo mais vontade de ser padre do que desilusões de ser padre. Nem mesmo as preocupações do futuro, por exemplo, a velhice desamparada, uma doença grave inesperada, ou a distância da própria família. Até ao momento, nada disso põe em crise a minha vocação sacerdotal. Aliás, tenho a certeza de que o Senhor que me chamou para a sua Messe não me deixará abandonado.

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