Sábado, 5 de Junho de 2010 - "a nossa vida, a de um padre em especial, é feita de tantas vidas"
Gostaria de dizer, em primeiro lugar, caro leitor, que quando fui convidado para escrever neste espaço pelo amigo João Carita, quando acertei a data, não tinha ainda clara consciência que seria o último do ciclo «ano sacerdotal».
Entretanto assumi este trabalho como um desafio o qual não podia recusar. Tive, é certo, como Jeremias, vontade de dizer: «ai não posso… eu não… há outros (com toda a verdade) que farão muito melhor do que eu». Este discurso, ainda que repetido, não me sossegou: em mim há aquela voz nunca se cala sempre que procuro evitar uma situação para não me incomodar: «vá… isso não é desculpa! Podes fazer…esforça-te!». Assim, aqui faço “solenemente” o compromisso de partilhar algumas impressões de uma semana que só Deus, na sua infinita omnisciência, saberá como há-de ser. Veremos então o que irá aparecer.
Porque estamos mesmo no fim do ano sacerdotal, quero confessar-vos o seguinte: há uma passagem sublinhada no livro do Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré (2007, p. 353) que, como uma melodia de uma bailado de Tchaikovsky, ressurge imprevisivelmente fazendo-me re-pensar no tema uma e outra vez. Ao discorrer sobre o tema, «Cristo bom Pastor», o Papa diz o seguinte: «…o pastor ao serviço de Jesus (…) não deve prender os homens a si mesmo, ao seu pequeno eu». O conhecimento recíproco que o liga às “ovelhas” a si confiadas deve tender à sua recíproca introdução em Deus, a encaminhar-se para Ele; deve ser, pois, um encontrar-se na comunhão do conhecimento e do amor de Deus. O pastor ao serviço de Jesus deve conduzir sempre para além de si mesmo, de modo que o outro encontre toda a sua liberdade; por isso, também se deve transcender sempre a si mesmo rumo à união com Jesus e com o Deus trinitário.
Nada podia ser mais claro e mais exigente! A missão do Padre é aproximar as “ovelhas” a Deus, esquecendo-se de si mesmo, apontando caminhos vários para que elas, em liberdade, façam a sua história com Deus. Conhecemos, por exemplo, os metais como bons condutores de energia. O pastor é como um desses metais: transformado pela vida em Deus, é capaz de contagiar os outros, pelas palavras, pelo testemunho de vida. Essa é a razão da sua existência: prolongar a missão de Jesus em cada contexto histórico, sendo, por isso, necessário o contacto constante com o Deus-revelado para que a Mensagem seja apresentada na sua pureza e radicalidade, sem distorções ou acomodações.
Bem sabemos, porém, que esta não é uma tarefa fácil. Somos humanos, talvez demasiado humanos para uma tarefa tão divina. Somos “vasos de barro”, frágeis e insuficientes para transportar o tesouro de Deus. Mas consola-me pensar que Deus serviu-se de homens tão limitados como eu para, por meio deles, continuar a sua obra. Conhecer a vida dos santos é, neste sentido, motivo de algum alívio espiritual…. Mas sei que os erros dos outros não justifica nem desculpa os meus. E bem sei que tenho diante de mim um caminho longo e imprevisível a percorrer…
Por vezes vivemos num só dia sentimento fortemente contrastantes: a alegria e a tristeza; o amor e o desespero; o desleixo e o zelo. Lembro-me de alguns momentos vividos esta manhã: a alegria das crianças em final de ano; o entusiasmo dos acólitos em ensaio para a Celebração deste Domingo com o Sr. Bispo. Lembro-me, em especial, do Baptismo do Rúben, às 12h00, do encanto e da ternura que só as crianças sabem despertar no coração dos adultos. Algumas horas depois, presidia à missa de corpo presente do Sr. Domingos, um homem bom que deixou filhas e netos de olhar triste e vazio, um tanto semelhante às viúvas da liturgia deste Domingo – a de Serepta e a de Naím. Lembrei-me que a nossa vida, a de um padre em especial, é feita de tantas vidas; que partilhamos as alegrias e as perdas da humanidade; que procuramos conter as angústias e abri novas perspectivas àqueles que estão mais abatidos, semeando através da palavra e da presença, novos sentidos, outra esperança, fundada n’Aquele que nos chamou à vida.
No final da tarde, encontrei a Dª Ascensão num vai e vem com um regador na mão. Salvava a vida das hortênsias que ela mesmo tinha plantado há já um mês atrás da morte eminente, depois de uma tarde de calor como a que esteve. Pouco depois, vejo-a curvada sobre a terra. Às hortênsias, juntaram-se agora outras plantas cujo os nomes, confesso, não sei. Trabalha com zelo e afinco. Com pequenos gestos, discretos mas significativos, dá a vida para que este mundo seja mais belo. Que Deus nunca lhe falte! Pergunto-me: que seria do mundo sem estas pessoas?
Pouco depois, apesar de ser sábado, estiveram também a por em ordem alguns papéis (para os quais, admito, tenho pouca aptidão…) duas colaboras da paróquia: a Margarida e a Arlete. Devo-lhe muito… também é caso para perguntar: que seria da Paróquia sem pessoas como elas? Nem vale a pena tentar adivinhar.
São 22h15, neste momento. Estou ainda na Paróquia e ouço, como música de fundo, o grupo coral, dirigido pelo incansável Emanuel Carvalho. Estão em ensaio geral. Amanhã o sr. Bispo D. Joaquim estará na Celebração das 19h30 para Crismar um grupo de 14 adultos. O cântico repete-se, como se fosse um apelo, insistentemente feito, para que eu, como sacerdote e membro da Congregação da Missão, não me esquecesse do lema que animou S. Vicente de Paulo, no longínquo séc. XVII, o mesmo de Isaías, proclamado na Sinagoga de Nazaré por Jesus:
«O Espírito de Deus repousa em mim,
O Espírito de Deus me consagrou.
Com Ele eu vou levar a Boa Nova aos pobres,
E ama-los como irmão, como Cristo amou».
Ouço-os cantar. Cantam bem. Dou graças a Deus por eles.
Seria um possível um mundo sem música? Claro que não…

Ser Padre é em primeiro lugar um dom que na maior parte das situações é transformado em realidade.Todos nós sabemos que exige uma entrega total ao longo da vida, ao serviço de uma comunidade.
Nos dias de hoje o papel de Padre é ainda de maior importância e de grande responsabilidade se atendermos à organização da nossa sociedade que não está estruturada devidamente, por forma a responder em termos de formação humana, educativa, etc.
Daí resulta que uma grande parte das pessoas, tendo contudo muita informação ao seu dispor não tenham a formação necessária que possa contribuir para o seu crescimento, como pessoa.
A nossa Paróquia tem a felicidade de ter no seu seio o Padre Nélio, que pelas suas características como pessoa, tem desempenhado um papel importantissmo, na comunidade. Pelas suas homílias que visivelmente são preparadas para cada momento, procura associar, com muito sucesso, a religião a aspectos práticos da vida. Ora isso permite que as pessoas captem a mensagem que está a ser transmitida, ajudando as pessoas a viver melhor, com mais fé e com mais força para enfrentar as dificuldades diárias.
Se assistirmos às celebrações dominicais, mais voltada para as crianças, é delicioso observar a satisfação das crianças e a sua atenção ao ouvi-lo e a participarem directamente na missa, dando-lhes a importância que eles necessitam de sentir, como crianças. Ora isso significa crescimento! Crescimento numa fase importante da vida em que estão ávidos de aprender e absorver o que lhes é transmitido.
È sem dúvida um grande dinamizador desta Paróquia, junto dos mais e menos jovens, motivando-os, levando-os a desempenhar uma papel activo e em grupo, na comunidade, mostrando a importância da religião na vida deles.
Há muito a fazer, mas com a sua entrega e empenho, dia após dia, todos nós nos sentiremos mais ricos espiritualmente.
Bem haja o Padre Nélio! Que Deus lhe dê muita saúde, força e clareza, mostrando-lhe o caminho a seguir para atingir os Seus desígnios.