Quarta-feira, 9 de Junho 2010 - E adormeço cantando…
O sacerdote e o ministério da Caridade.
A leitura do texto de uma conferência de Vicente A. Gargallo, delegado episcopal da Cáritas Espanhola, agora publicado na revista Lumen (Março/Abril de 2010, pp. 11-21) proferida em Fátima, em Dezembro passado, fez-me pensar outra vez na importância que dou, como sacerdote, a algumas áreas fundamentais da acção da Igreja, tais como a Caridade.
«Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35)
A afirmação de Jesus é feita num contexto de despedida, na última ceia, segundo a descrição de S. João, uma versão da ceia na qual, ao contrário dos sinópticos, não há instituição da Eucaristia. O acontecimento central é o gesto de Jesus, próprio dos escravos, dos servos, das mulheres, que lavavam os pés aos seus superiores. Na verdade, as diferentes narrativas – sinópticos e S. João – propõe-nos uma lição que nunca deve ser esquecida: Eucaristia e serviço abnegado ao outro é condição necessária para ser seguidor de Jesus.
Sabemos que a missão da Igreja realiza-se numa tríplice vertente: a Liturgia, a Eucaristia e a Caridade. Por vezes, no entanto, em conformidade com a nossa sensibilidade ou carisma pessoal, tendemos a dar mais importância a uma vertente descuidando outras. Parece-me normal e até desejável que alguém seja mais zeloso, por exemplo, no cumprimento das normas litúrgicas e que outro se comprometa mais com a Evangelização, desenvolvendo estratégias para que a Palavra de Deus chegue a todos e seja, por todos, compreendida. Parece-me também normal e até desejável que alguns entre nós sejam mais sensíveis ao sofrimento daqueles que, de algum modo, são o rosto sofredor de Cristo crucificado. No entanto, como pastores, devemos promover acções para que todas estas áreas sejam justamente desenvolvidas e apareçam aos olhos do mundo como um dever da comunidade eclesial inteira e não de um grupo em particular. As três funções assumidas pela Igreja, pelos baptizados, são um testemunho da nossa condição de ungidos pelo Espírito e participantes no Sacerdócio de Jesus.
Parece-me que quando investimos em exclusivo numa área como, por exemplo na liturgia e menosprezamos outra como a caridade, corremos o grave risco de sermos merecedores das críticas de S. Paulo (infelizmente continuam a ter actualidade):
«Chegou aos meus ouvidos que quando vos reunis em assembleia há entre vós divisões… deste modo, quando vos reunis não o fazeis para comer a ceia do Senhor, pois cada um de vós se apressa a tomar a sua própria ceita; e, enquanto uns passam fome, outro se enfartam… que vos direi? Devo louvar-vos? Nisto não vos louvo». (1Cor 11,18.20.22).
A falta de caridade, sublinhou o conferencista, «os abusos anti-fraternos desmentem, na prática, a unidade realizada pela participação na Eucaristia (Gargallo, op. cit, p. 14). Sobre o tema, escreve também o Papa Bento XVI:
«A natureza da íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia) e serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros. Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de actividade de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência» (Deus Caritas est, 25)
A celebração dos Sacramentos, em particular da Eucaristia, «fonte e cume da vida cristã», exige portanto um contexto próprio: que haja uma comunidade onde todos se reconhecem como irmãos, irmãos que partilham os mesmos princípios, professam a mesma fé e vivam unidos na caridade.
É claro que fazer também da caridade o exclusivo da actividade pastoral pode favorecer, por exemplo, um activismo doentio, ou uma postura própria de quem trabalha para uma ONG, o que a Igreja não é de forma alguma.
Queira Deus que estas três áreas sejam sempre alvo da atenção, do zelo de todos os baptizados e, em particular, dos sacerdotes. Nas palavras de um Padre espanhol, Luis G-Carvajal, quando falha a “diakonia” «não é apenas uma que falha, mas as três porque a evangelização sem “diakonia” reduz-se a mero palavreado e a liturgia se “diakonia” reduz-se a ritualismo» (IDEM, Com los pobres, contra la pobreza, p.187).
Taizé
Mais um dia que termina. O tempo corre quando estamos ocupados com trabalhos que nos realizam profundamente. À noite, depois de uma reunião de preparação para o Baptismo, estive ainda com os jovens que todas as semanas (exceptuando a primeira quarta de cada mês) se reúnem para rezar com cânticos de Taizé. É uma ambiente belo, sentido, profundo e autêntico. Pergunto-me, por vezes, pela vida destes jovens. É pouco comum, nos dias que correm, assumirem aquela postura. Cantam, fazem um longo silencio, permanecem debruçados, numa atitude de súplica, sobre a cruz de madeira. Só Deus saberá o que cada coração trás consigo. E cada um sabe que, naquele lugar, pode encontrar Aquele Deus que conhece profundamente os seus corações. Canta-se uma e outra vez:«De noche iremos de noche que para encontrar la fuente.
Sólo la sed nos alumbra, sólo la sed nos alumbra».
Acendem-se velas. E outro cântico é repetido tantas vezes como os minutos de uma hora. Lê-se um pequeno texto do Ir. Roger e conclui-se a oração com um cântico cuja letra (os que cantam saberão disso?) nasceu da vida de uma grande mulher, Carmelita, em Espanha, no Séc. XVI, a grande Teresa de Ávila:
«Nada te turbe, nada te espante; quien a Dios tiene, nada le falta.
Nada te turbe, nada te espante: solo Dios basta».
E adormeço cantando…

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